
GLP-1 e comportamento do consumidor: 6 mudanças inesperadas
Os medicamentos à base de GLP-1 reduzem o apetite, mas o efeito mais relevante para o mercado aparece no carrinho de compras. Quem usa as canetas troca doces e snacks por proteína, fibras e suplementos. A família acompanha parte dessa mudança, e alguns hábitos continuam mesmo depois que o tratamento termina.
Pesquisas recentes do BCG, da PwC e da Morgan Stanley, somadas aos dados brasileiros reunidos no Observatório GLP-1 da Pronutrition, mostram seis mudanças que vão além do óbvio. Para quem desenvolve suplementos, cada uma delas aponta para uma decisão de portfólio.
Neste artigo:
- O dinheiro liberado migra para saúde, beleza e bem-estar
- A cesta troca indulgência por proteína e fibra
- Suplementos estão entre as categorias que mais ganham
- O hábito de suplementar sobrevive ao fim do tratamento
- A casa inteira muda junto
- Existem quatro perfis de consumidor GLP-1, com prioridades diferentes
Quantos brasileiros usam GLP-1?
Cerca de 5,5% da população brasileira usa medicamentos à base de GLP-1 em 2026, segundo a MindMiners. A Euromonitor chega ao mesmo número e coloca o Brasil acima da média global, de 3,7%.
O mercado acompanha esse ritmo. A categoria faturou R$ 16,9 bilhões nos 12 meses até julho de 2026, alta de 105,7%, segundo a IQVIA. No mesmo período, sua participação no faturamento das farmácias passou de 3,6% para 6,6%.
Por que esse número deve crescer
A patente da semaglutida expirou no Brasil em março de 2026, e novas versões chegaram às farmácias a partir de junho. Segundo o Ministério da Saúde, canetas que custavam entre R$ 1.700 e R$ 2.000 por mês passaram a ser encontradas entre R$ 300 e R$ 400. O guia de preços do Observatório GLP-1 acompanha essa queda com atualização diária.
Mais acesso significa mais consumidores mudando o que colocam no carrinho. Na Pague Menos, segundo o CEO da rede, cada R$ 1 gasto com GLP-1 vem acompanhado, em média, de R$ 8,14 em outros produtos.
As pesquisas internacionais ajudam a antecipar o que esse consumidor compra. Os EUA têm hoje cerca de 16 milhões de usuários ativos, e as mudanças medidas por lá tendem a chegar ao Brasil conforme o acesso se amplia.
1. O dinheiro liberado migra para saúde, beleza e bem-estar
Quem usa GLP-1 gasta menos com comida, mas o orçamento continua circulando. Em pesquisa com mais de 1.500 usuários em nove mercados, o BCG identificou que cerca de um terço do dinheiro liberado vai para a poupança e outro terço paga o próprio medicamento.
O terço restante muda de categoria. Os principais destinos são suplementos, beleza e cuidados pessoais, vestuário, academia e procedimentos estéticos.
No Brasil, o custo do tratamento pesou mais até aqui. Segundo a NielsenIQ, 62% dos usuários precisaram cortar outras despesas para manter as canetas, principalmente bares, restaurantes e lazer. Com a queda de preço, parte desse orçamento tende a ficar livre para outras categorias.
2. A cesta troca indulgência por proteína e fibra
Os usuários de GLP-1 compram menos doces e snacks e mais proteína, frutas e vegetais. Segundo o BCG, eles são duas vezes mais propensos a escolher produtos funcionais do que opções premium.

A PwC encontrou o mesmo padrão: 61% dos usuários compram menos doces e 56% compram menos snacks salgados. Ao mesmo tempo, 35% passaram a comprar mais proteína embalada. A consultoria atribui parte dessa mudança à redução do chamado “ruído alimentar”, a negociação constante com o próximo lanche ou compra por impulso.
No Brasil, levantamento da Scanntech apresentado na APAS Show 2026 aponta que 47% dos usuários aumentaram o consumo de proteínas.
3. Suplementos estão entre as categorias que mais ganham
Usuários ativos de GLP-1 pretendem gastar cerca de 20% a mais em suplementos de proteína, fibras e colágeno, segundo o BCG. Multivitamínicos, produtos de hidratação e suplementos para cabelo e pele também aparecem entre os que mais crescem.
O BCG associa esse movimento a dois fatores. Com menos apetite, o usuário passa a escolher com mais intenção o que consome. O tratamento também costuma vir acompanhado de um interesse maior por monitorar e otimizar a própria saúde.
A PwC reforça a tendência: 80% dos usuários atuais usam pelo menos um produto de apoio junto ao tratamento. Apenas 23%, porém, se sentem bem atendidos pelas soluções disponíveis hoje. Esse espaço entre demanda e oferta é uma oportunidade para marcas que entendem esse consumidor.
No Brasil, o sinal aparece no varejo. A Drogaria Araujo registrou alta de 53% nas vendas de suplementos proteicos, e pesquisa divulgada pela Abradilan indica que usuários de GLP-1 gastam de duas a três vezes mais com academias, suplementos e vitaminas do que não usuários.
4. O hábito de suplementar sobrevive ao fim do tratamento
Quando a pessoa para o medicamento, a vontade de comer e os velhos hábitos alimentares costumam voltar em um a três meses. Segundo o BCG, o comportamento ligado a suplementos, academia e cuidados pessoais se mostra mais durável.
Isso importa porque muita gente entra e sai do tratamento. Nos EUA, cerca de um terço de quem já usou GLP-1 está em pausa, e aproximadamente 60% desse grupo planeja retomar. No Brasil, pesquisa divulgada pela Abradilan aponta que 63,7% dos usuários atuais declaram baixa ou muito baixa intenção de continuar.
O BCG separa as categorias em quatro comportamentos após a pausa:
- Rebote: snacks salgados, refeições congeladas e doces voltam ao nível anterior.
- Crescimento sustentado: carnes, frutas, vegetais e alimentos ricos em proteína, como iogurte, continuam em alta.
- Crescimento temporário: alimentos e bebidas de bem-estar comprados durante o tratamento voltam ao patamar anterior.
- Queda sustentada: bebidas esportivas e alguns laticínios seguem em baixa.
Para marcas de suplementos, o consumidor que parou o tratamento continua sendo cliente. Em muitos casos, ele mantém a rotina de suplementação que criou durante o uso.
5. A casa inteira muda junto
Segundo o BCG, 70% dos usuários relatam mudanças de comportamento nas pessoas com quem moram. Quem convive com um usuário adota de 30% a 50% das mudanças dele, com menos ultraprocessados, mais frutas e vegetais e menos fast food.
Com esse efeito, o mercado influenciado pelo GLP-1 fica cerca de 50% maior do que a base de usuários ativos. Nos EUA, a PwC calcula que 21% dos lares já têm um usuário atual, contra 9% em janeiro de 2025.
No Brasil, a Scanntech chama esse movimento de “efeito halo”. Somando quem usa ou já usou o medicamento (14% da população) e quem convive com essas pessoas, o alcance chega a 21% da população.
6. Existem quatro perfis de consumidor GLP-1, com prioridades diferentes
O BCG identificou quatro perfis de compra entre os usuários, cada um com um padrão próprio de gasto. Para marcas de suplementos, o perfil mais próximo é o de quem gerencia uma condição de saúde, que concentra o gasto em suplementos e saúde intestinal.

Otimizadores de estilo de vida: usam o GLP-1 como ponto de partida para uma mudança mais ampla de vida. O gasto extra vai para academia, relógios e pulseiras inteligentes e roupas. Para marcas de suplementos, é o público mais próximo de proteína e performance.
Focados em saúde: estão concentrados em lidar com o dia a dia do tratamento. Por isso, direcionam o gasto para suplementos, produtos contra náusea e saúde intestinal. É o perfil com ligação mais direta com suplementos.
Transformadores estéticos: querem ver a mudança no corpo refletida na aparência. Gastam com procedimentos estéticos, como firmeza da pele e contorno corporal, além de cuidados com o cabelo e perfumes. Conversam com nutricosméticos, como colágeno e fórmulas para cabelo e pele.
Consumidores all-in: reorganizam toda a rotina de saúde e bem-estar em torno do tratamento. Aumentam o gasto em praticamente todas as categorias, exceto alimentação. É um grupo pequeno, mas que compra de tudo.
A leitura é que não existe um único consumidor GLP-1. Na prática, a mensagem de um produto precisa mudar conforme o público: quem treina busca performance, e quem é focado em saúde busca cuidado no dia a dia.
O que isso significa para marcas de suplementos
As seis mudanças apontam para um portfólio organizado por função. O consumidor GLP-1 procura produtos que resolvam uma necessidade clara da rotina, em doses menores e formatos fáceis de consumir.
- Categorias em alta: os estudos destacam proteína, fibras, colágeno, multivitamínicos, hidratação e saúde intestinal.
- Porções e formatos: BCG e PwC recomendam embalagens menores e porcionadas. Formatos de dose única, como gomas e géis alimentícios, conversam com esse consumidor.
- Comunicação por perfil: quem treina, quem gerencia uma condição e quem busca resultado estético pedem mensagens diferentes.
- Além do usuário ativo: a família e quem já parou o tratamento também fazem parte do público.
Um cuidado vale para todas as frentes. A comunicação de suplementos alimentares segue as regras da Anvisa e não pode apresentar o produto como tratamento ou como complemento do medicamento. A oportunidade está em atender o comportamento desse consumidor, sem prometer efeito sobre o tratamento.
Na prática com a Pronutrition
Acompanhamos esse mercado todos os dias no Observatório GLP-1, que reúne dados de IQVIA, Scanntech, Close-Up e mais de 130 fontes. É essa leitura que levamos para as marcas que estão revendo o portfólio para o consumidor que o GLP-1 está formando.
Perguntas frequentes
O que são os medicamentos GLP-1?
São medicamentos que imitam a ação do GLP-1, hormônio ligado à saciedade. No Brasil, são usados sob prescrição médica no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade e ficaram conhecidos como “canetas emagrecedoras”.
Quantos brasileiros usam GLP-1?
Cerca de 5,5% da população em 2026, segundo a MindMiners. Considerando quem já usou e quem convive com usuários, a Scanntech estima que o efeito alcança 21% da população.
Quais suplementos mais crescem entre usuários de GLP-1?
Segundo o BCG, proteína, fibras e colágeno lideram, com alta planejada de cerca de 20% no gasto. Multivitamínicos, hidratação e suplementos para cabelo e pele também crescem.
O consumo muda de vez ou volta ao normal depois do tratamento?
Depende da categoria. Snacks e doces tendem a voltar ao nível anterior em poucos meses, enquanto suplementos, academia e cuidados pessoais costumam se manter.
Uma marca pode posicionar um suplemento como complemento do tratamento com GLP-1?
Não. A comunicação de suplementos alimentares segue as regras da Anvisa e não pode atribuir ao produto efeito de tratamento. Antes de lançar um produto voltado a esse público, vale validar rótulo e comunicação com especialistas regulatórios.



















